Coordenação médica da Seleção Brasileira

O departamento médico de qualquer equipe esportiva é parte fundamental de sua estrutura. Existe uma interface complexa entre todos os departamentos da chamada comissão técnica que precisa funcionar como uma engrenagem para que o sistema funcione de maneira perfeita. E ainda existe uma faceta essencial, que é a interação com os atletas.

A função mais importante do médico é sem dúvida nenhuma exercer o seu papel de ofício, que é promover a prevenção, realizar um diagnóstico correto e implementar o tratamento adequado e preciso. No esporte é necessário ir além e esse tratamento precisa promover a recuperação mais rápida possível, minimizando as implicações do afastamento de um atleta. Para isso não medimos esforços e nem recursos com o objetivo de obtermos sucesso.

Mas essa é apenas uma parte da função do coordenador médico de uma equipe. A gestão da informação é com certeza um dos maiores desafios que nós temos. A comunicação interna entre os setores do departamento médico e em seguida entre os departamentos de uma comissão técnica é a chave para o sucesso de todos.

Sempre dizemos que precisamos de um trabalho interdisciplinar entre todas as áreas, mas o que realmente isso significa? De que maneira traduzimos isto para a prática? Coordenar um departamento médico significa ter a melhor gestão da informação, dando a todos os setores da nossa área a autonomia necessária, e organizar esta comunicação para conectar as capacidades de cada um.

 

Na seleção brasileira de futebol é isso o que procuro fazer, sendo um espelho da atividade que também realizo no Atlético Mineiro. Formatamos o nosso departamento com a participação de vários setores, incluindo profissionais médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, odontologistas, enfermeiros e massagistas. E ainda temos uma interface muito importante com a fisiologia que se interpõe na nossa relação com o departamento de preparação física.

O sucesso da equipe vem com a conquista de títulos, mas para isto ocorrer precisamos do somatório dos sucessos de cada área. Não consigo enxergar uma equipe vitoriosa quando não ocorre um trabalho de excelência de cada parte desse grupo. Para estar no topo precisamos que a equipe tenha a melhor estratégia e implementação dessas ações, o que ocorre quando treinamentos, repouso e alimentação estão equilibrados. Isto envolve um planejamento minucioso do qual a área da saúde pode contribuir muito.

 

Quando o departamento médico pouco aparece é sinal que estamos na direção correta e temos uma concordância na filosofia de trabalho. Esse alinhamento entre departamento médico e preparação física é primordial e permite minimizar a ocorrência de vários problemas. É claro que lesões sempre acontecem, é do jogo. O que podemos fazer é implementar programas preventivos e participar da estratégia que será realizada junto com a comissão técnica. Quando já temos o atleta lesionado, nos cabe a solução do problema. Muitos entendem que essa é a nossa principal função, mas eu acredito que é bem mais complexo.

Provavelmente o momento mais delicado que vivemos é a decisão para o retorno do atleta ao esporte após uma lesão. Vários pontos influenciam nessa definição e, muitas vezes, são aspectos além da medicina. Interesses financeiros, contratuais, época da temporada, idade, entre vários outros, interferem nessa decisão e no risco que o jogador, o médico e os dirigentes estão dispostos a correr. Mais uma vez cabe ao coordenador médico participar desse momento com as informações mais corretas e atualizadas para compartilhar a decisão final com os envolvidos.

 

A confiança do jogador, da comissão técnica, da torcida e da imprensa no nosso trabalho é construída com o tempo em que somos testados diariamente. Nossas ações, condutas, postura e competência criam a nossa reputação e é baseado nela que seremos respeitados.